Baseada na obra de Jorge Amado, um dos maiores nomes da literatura brasileira, a novela Tieta estreou em 1989 para marcar definitivamente a história da televisão. Coube aos roteiristas Aguinaldo Silva, Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn a missão de adaptar essa narrativa para o formato televisivo, expandindo o universo original.
Tanto nas páginas de Jorge Amado quanto na tela da TV, a história ganha vida na fictícia cidade Santana do Agreste, no interior baiano. É nessa comunidade, formada pela hipocrisia e pelo moralismo, que cresceu Maria Antonieta Esteves. Mais conhecida pelo apelido Tieta ou Tieta Cabrita, a jovem da primeira fase, interpretada por Cláudia Ohana, é cheia de vivacidade, beleza e uma sexualidade desimpedida, que atraía os olhares e, ao mesmo tempo, despertava a fúria da sociedade carola.
O espírito livre da jovem despertava profunda inveja em sua irmã mais velha, Perpétua Esteves. Ao contrário da protagonista, a antagonista surge extremamente severa e, mascarada pela religiosidade e pelos bons costumes, passa a vigiar todos os passos de Tieta. Não demora para que Perpétua flagre a caçula na cama com um rapaz e corra para denunciá-la ao mesquinho e maldoso Zé Esteves, pai das duas. Diante da situação, o velho espanca Tieta em praça pública com seu cajado e expulsa-a da cidade.
Diferente da literatura, a adaptação para a televisão possibilitou um novo elemento à narrativa, considerado polêmico e atemporal. A abertura da telenovela, protagonizada por Isadora Ribeiro sob a trilha de Luiz Caldas, foi vista como provocativa para a época por apresentar o corpo de uma mulher nua, desafiando os padrões da sociedade e da TV da época. Afinal, se trata de um cenário de quase 40 anos atrás.
Apenas pela abertura da novela, abre-se espaço para uma discussão que ultrapassa o enredo e permeia a obra como um todo: o empoderamento e a sexualidade feminina. Em um contexto de recente fim da ditadura militar e de reconstrução da democracia, esses temas funcionam como fios políticos da história. Eles servem para discutir questões que ainda afetam as mulheres até hoje, como a violência de gênero, a construção do feminino na sociedade e o modo como o machismo exacerbado regulava a liberdade delas.
Tieta transforma a imagem da “Mulher caída”, que volta suplicando a ajuda de um homem. Ela foi expulsa de Santana do Agreste por viver sua sexualidade e retorna 25 anos depois, não como uma pecadora arrependida, que colocou o “rabinho entre as pernas, mas como uma mulher bem-sucedida, dona de si, que dita as próprias regras e com negócios lucrativos em São Paulo. A protagonista utiliza de seu dinheiro e influência para ajudar outras mulheres da cidade, como a personagem “Tonha”, sua madrasta. Ainda que não fosse conhecido ou discutido na época, a sororidade feminina é outro ponto político importante na construção da obra.
É interessante pensar que um literário que nos anos 1970, através de um romance, traria luz em assuntos que atravessam séculos, afinal o patriarcado é estrutural. Tieta não foi apenas entretenimento, mas um espelho incômodo de um Brasil moralista, onde as mulheres que ousavam ser livres eram banidas, mas que, no fim, elas que movem o progresso e a sociedade. Após quase 50 anos do lançamento da obra na literatura, quando uma mulher ousa ser livre sexualmente, ela ainda é lida como a “Quenga” e “Puta”? Esse moralismo mudou? Vivendo nesse cenário feminicida que ceifou 1.568 vidas de mulheres no ano passado, acredito que não.