Resenha: O adeus mais bonito do rap brasileiro

Já faz quase um ano desde que Emicida Racional VL 2 – Mesmas Cores & Mesmos Valores foi lançado. Para ser mais exato, passaram-se oito meses desde sua estreia, em 11 de dezembro de 2025, e o sentimento continua o mesmo. Este é, para mim, o álbum do ano. Um trabalho que representa um retorno às raízes do rap e, ao mesmo tempo, um reencontro, ou talvez o encerramento de um ciclo na trajetória de Emicida.

Se quer aproveitar totalmente o álbum, chegue em casa, apague as luzes, sente-se em algum lugar, coloque seu fone de ouvido e escute, com atenção, cada som, cada letra e cada melodia que passa de faixa para faixa. Esse é um álbum que toca a sua alma, que faz você refletir e pensar: o que eu estou fazendo com o meu tempo? Aproveite, viva, tenha sua família por perto, olhe para o seu passado, se reencontre.

Com 10 faixas e aproximadamente 42 minutos de duração, Emicida Racional VL2 – Mesmas Cores & Mesmos Valores apresenta participações de Rashid, Projota, Amaro Freitas, Cassiano, Estela, Dona Jacira e Henrique Albino. Inspirado diretamente em Cores & Valores, dos Racionais MC’s, o disco dialoga com a história do hip-hop brasileiro. Ao longo das faixas, Emicida revisita suas origens, reflete sobre luto, pertencimento e amadurecimento, construindo uma obra íntima, cheia de significados e profundamente conectada à sua própria trajetória, a mesma que, anos antes, o levou a criar AmarElo, meu álbum preferido dele até então.

Em julho de 2025, Emicida precisou enfrentar uma das maiores dores de sua vida: a morte de sua mãe, Dona Jacira, aos 60 anos. O álbum nasce desse processo de luto e despedida. Essa jornada tem início em “Bom dia, né gente? (Ou saudades em modo maior)”,a faixa de segunda maior duração, construída a partir de áudios enviados por Dona Jacira ao longo dos anos, e termina com o choro do rapper. É a primeira pancada que o álbum dá ao ouvinte. A faixa funciona como o coração da obra, estabelecendo o tom que acompanha todo o disco. É o momento mais emocionante do álbum. Ela mostra o ponto de partida, antes mesmo das rimas e reflexões que virão nas faixas seguintes.


A segunda faixa é a que traz o nome do álbum, uma música de pouco mais de dois minutos e, como ela mesma traz em sua melodia, mostra que “somos o que somos”. Logo em seguida, vem “O que noiz faz com essa dor?”, de quase dois minutos de duração. Sem letra alguma, apenas melodia, mas isso não importa. A faixa é emocionante e, como eu disse no começo desta resenha, ela toca a sua alma.

Entre as participações, a que mais me marcou é o feat com Projota e Rashid em “A mema praça” , rimas que só esses três juntos conseguiriam entregar, um retorno ao auge de cada um deles. Eu poderia comentar cada faixa individualmente, o disco merece esse cuidado, mas prefiro fechar esta resenha reforçando o que ela representa: assim como os Racionais MC’s ajudaram a salvar a vida de Emicida, o próprio Emicida, com este álbum, ajuda a salvar a vida de muita gente. Chame sua mãe, chame sua irmã, deixe tudo de lado por 42 minutos e aproveite o que ele ainda tem para nos dar.

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