O Auto da Compadecida, peça escrita por Ariano Suassuna em 1955 e montada pela primeira vez em 1956, em Recife, acompanha João Grilo e Chicó, dois nordestinos pobres que sobrevivem de pequenos golpes numa cidade do sertão da Paraíba. A confusão que abre a trama é em torno do enterro de um cachorro: para ganhar uns trocados, João Grilo convence o padre local a celebrar a cerimônia, inventando que o animal deixou dinheiro de herança; um golpe que vai crescendo até envolver o bispo da região. A história segue até uma invasão de cangaceiros que mata boa parte dos personagens, e termina com um julgamento no além, em que Jesus, o Diabo e a Compadecida (Nossa Senhora) decidem o destino de cada personagem. É dessa mistura entre golpe, comédia e crítica à Igreja e às elites do nordeste, contada na linguagem do cordel, que a peça se tornou uma das mais visitadas do teatro brasileiro.
Quando Guel Arraes, cineasta e roteirista brasileiro, levou a história primeiro para a TV, em 1999, e depois para o cinema, em 2000, foi o próprio Suassuna quem sugeriu incorporar cenas de duas outras peças suas, O Santo e a Porca e Torturas de um Coração. Foi de lá que vieram personagens como Rosinha, filha do coronel da região, e os capangas Cabo Setenta e Vicentão. Nenhum deles aparece no texto original de 1955. Rosinha, principalmente, traz no filme uma trama de romance que não existia na peça, e que passa a ligar João Grilo, Chicó e o coronel ao resto da história.
Por outro lado, ficaram de fora cenas que estavam na minissérie, como o golpe do gato que “evacua” moedas de prata; que João Grilo e Chicó tentam vender para a esposa do padeiro. E a primeira invasão dos cangaceiros à cidade. São cortes que retiram do filme parte do tom pitoresco cômico da minissérie e concentram a atenção na trama de Rosinha e no julgamento final, que passa a carregar quase todo o peso da parte final.É esse julgamento que retoma, com mais força, a tradição dos autos medievais; peças religiosas em que almas eram julgadas diante do público, só que reescrita no imaginário católico popular do Nordeste: Jesus, o Diabo e Nossa Senhora discutindo o destino de um padre que é corrupto, um bispo covarde e um coronel conservador e cruel, num tribunal.
Esse contraste entre comédia e o drama se sustenta, em boa parte, pelo elenco: Matheus Nachtergaele e Selton Mello sustentam o João Grilo e Chicó pelo filme inteiro, enquanto Fernanda Montenegro, Lima Duarte, Diogo Vilela e Marco Nanini entram com mais peso na parte do julgamento, dando ao final um tom mais dramático que durante a primeira parte do filme não prepara o espectador para sentir. Foi esse contraste criativo que ajudou o filme a terminar os anos 2000 como o filme mais visto no Brasil naquele ano, com mais de dois milhões de espectadores, e a levar os prêmios de melhor diretor, roteiro, lançamento e ator no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.
Antes disso, em 1969, a peça já tinha chegado ao cinema com A Compadecida, dirigido por George Jonas, gravado em Pernambuco em 1967, com roteiro coescrito pelo próprio Suassuna e Antônio Fagundes no papel de Chicó. Sem o impulso de uma exibição na TV como em 1999, e em um momento bem diferente do cinema nacional, o filme acabou praticamente esquecido.
Vinte e quatro anos depois do filme de Arraes, Rosinha volta em O Auto da Compadecida 2 (2024), de novo com Virginia Cavendish no papel, concretizando o fato de que a trama emprestada de O Santo e a Porca seguiu como parte do universo. A grande mudança é Taís Araújo assumindo a Compadecida no lugar de Fernanda Montenegro, justamente o papel que, no primeiro filme, sustentava o peso do julgamento final.
Mais de duas décadas depois, o que fica de O Auto da Compadecida não é só o humor e a cultura nordestina, mas o jeito como Arraes adaptou de forma genial a obra de Suassuna, que, mesmo emprestando personagens de outras peças, manteve o centro da história dessa obra tão importante da literatura brasileira, misturando as vivências do cangaço, da vida no Nordeste na década de 1930 e os autos medievais de forma tão criativa e única, onde fé, crítica social e comédia popular se encontram sem que uma atrapalhe a outra.