Resenha: Dylan, um déspota esclarecido em “Highway 61 Revisited”

A arte da capa foi fotografada por Daniel Kramer na entrada do apartamento de Albert Grossman, ex-empresário do cantor | Foto: Daniel Kramer

“Judas! Judas!” gritavam os fãs de um gênero que parecia cambalear e que não tinha mais forças para se sustentar. O traíra nada mais era do que Bob Dylan, a figura tímida e apática que segurava uma Fender Telecaster em mãos. Imagem simbólica que marcaria a transformação de um Dylan acanhado, para o surgimento de um déspota esclarecido. Assim se formou a faceta de rockstar do músico que, algum tempo depois do show fatídico do festival de Newport, viria a lançar a maior das odes ao rock and roll, o álbum Highway 61 Revisited.

Lançado em 30 de agosto de 1965, o trabalho do músico é o sexto álbum de estúdio. Gravado pela Columbia Records, a obra conta com 9 faixas que mostram um Dylan elétrico e ardiloso, longe da figura messiânica que muitos fãs antigos esperavam. A verdade é que Dylan nunca quis ser ídolo, sequer conhecido.

É o que diz a faixa de abertura do álbum “Like a Rolling Stone”, considerada uma das melhores canções de todos os tempos. Fruto de um poema extenso de 20 páginas, Dylan repete em seu refrão a sensação de ser um completo desconhecido. Muitos acreditam que a canção seria direcionada a Edie Sedgwick, modelo e atriz norte-americana da época, mas o que de fato se parece, era que se tratava de uma carta a si mesmo.

A música que refletia um pouco da personalidade rebelde de Dylan, encontrou ainda mais espaço nos fabulosos licks de guitarra de Mike Bloomfield. Essa mesma guitarra que irritou os puristas do folk e que deu a identidade para o álbum. Bloomfield dedilhava em uma Fender Telecaster 1963 amarela, plugada em um amplificador Fender Twin Reverb. Focando em arpejos limpos, acordes invertidos e double stops, Bloomfield seguiu o conselho de Dylan de largar por um tempo os elementos de blues, pelo qual estava acostumado, e que mais tarde renderia a frase icônica “None of that B.B King Shit”.

Além da majestosa guitarra de Bloomfield, as influências de gêneros como folk, blues e rock, transforma Highway 61 Revisited em uma obra agressiva para a época, o que pode ter assustado um pouco os tradicionalistas do folk. O órgão Hammond, de Al Kooper, presente em quase todas as faixas do álbum, adiciona uma sensação angelical às canções, contrapondo as guitarras e gaitas ensurdecedoras.

É difícil encontrar pontos negativos em um dos maiores clássicos da música. Desolation Row, Highway 61 Revisited e Ballad of a Thin Man são algumas das canções que fazem jus ao seu prestígio. Mas algumas outras apresentam características que parecem enfraquecer um pouco a obra.

Queen Jane Approximately, por exemplo, possui uma guitarra desafinada que soa estranha ao entrar em conflito com os acordes do órgão e piano que acompanham a canção. A mixagem da música parece ser crua, como se essa fosse a filosofia de Dylan em não ligar para possíveis defeitos.

E nem para o que os outros pensariam. Bob Dylan parece criar um alter ego de um rockstar indiferente em Highway 61 Revisited. O eu-lírico do álbum se apresenta, muitas vezes, como alguém com poder e influência – nada diferente do cantor que se tornava o galã dos beatniks na época.

Acompanhado de frases ácidas sobre a sociedade norte-americana e reflexões sobre o ser, Dylan parecia ditar regras e estabelecer um certo tipo de poder sobre seus ouvintes, assim como um déspota. Faixas como Desolation Row e Like a Rolling Stone, exibem um Dylan convicto, como alguém que compreendia a força da sua obra e que, independente do que dissesse, haveria uma multidão disposta a segui-lo.

Sessenta e um anos depois de seu lançamento, Highway 61 Revisited permanece como um dos álbuns mais influentes e prestigiados da história da música. Com imperfeições técnicas, guitarras icônicas e versos convictos, Dylan consolidou a figura do artista indiferente às expectativas do público, transformando um gênero ao impor sua própria visão de mundo.

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