Resenha Crítica – Memórias de infância

Resenha Crítica – Filme: Aftersun (2022) – Charlotte Wells

 

Vencedor de diversos prêmios da crítica internacional e indicado ao Oscar de Melhor Ator pela atuação de Paul Mescal, Aftersun (2022), estreia da diretora escocesa Charlotte Wells na direção de longas-metragens, é um drama britânico que desafia as convenções do cinema sobre luto e memória. Com interpretações sensíveis de Paul Mescal e Frankie Corio, o filme transforma uma história aparentemente simples em uma profunda reflexão sobre as lembranças, o afeto e as ausências que permanecem após a perda.

 

Por: Aiko Fukushima

 

Escrever um filme sobre perda e saudade partindo de elementos tradicionalmente associados à comoção, como o cachorro feliz da família estar adoecendo ou um personagem em cuidados paliativos, é quase um convite inevitável às lágrimas. No entanto, Aftersun escolhe um caminho muito mais sensível e único. Por meio da sonoplastia, dos silêncios, dos pequenos gestos e das lembranças fragmentadas, o filme constrói a experiência de uma mulher adulta que tenta compreender a morte do próprio pai a partir das últimas férias de verão que viveram juntos, quando ela ainda era criança.

Por meio das gravações de uma filmadora antiga, a mente brilhante da diretora do filme, Charlotte Wells, revisita na narrativa fragmentos dessa última viagem e, simbolicamente, desse Last Dance entre pai e filha.

Aftersun quebra as barreiras entre as imagens que exibe na tela. É uma obra que te abraça, atravessa o subconsciente e desperta uma mistura de sentimentos difíceis de nomear, capazes de impactar o espectador de forma avassaladora e íntima, encontrando espaços silenciosos dentro de quem assiste.

Quando a coreografia final explode ao som de Under Pressure, cada verso atravessa as barreiras da narrativa. De repente, a urgência da vida e a iminência da perda se fundem de maneira dolorosa. Aftersun é sentimento, plenitude e vazio coexistindo no mesmo instante. É arte em sua forma mais sensível, a dor que nunca encontra palavras suficientes para ser explicada. Como já dizia nos versos de Leandro e Leonardo “Não tenho nada pra dizer / Só o silêncio vai falar por mim”, não aprendemos a dizer adeus, mas a arte de algum modo nos consola disso.

Compreendo que a obra divide opiniões. Para alguns, o ritmo é lento, desprovido de grandes acontecimentos ou emoções explícitas. De fato, em uma era hiper conectada, onde a velocidade dita as regras e até a dor por vezes precisa ser performada e consumida rapidamente nas redes sociais, Aftersun caminha na direção oposta. O filme encontra sua força justamente nos pequenos detalhes, nos silêncios e naquilo que nunca é dito.

As memórias de Sophie, personagem principal da trama, são atravessadas não pelo que aconteceu, mas pelo que poderia ter acontecido. São lembranças incompletas, reconstruídas pela imaginação de uma filha adulta que ainda tenta preencher as lacunas deixadas pela ausência. Acredito que essa é a maior beleza do filme, compreender que a memória nunca é um registro fiel dos fatos, mas uma tentativa constante de dar sentido ao que o tempo levou.

Aftersun é sentimento, é a subjetividade e a transparência que muitos não querem mostrar de si. Ele não entrega respostas, tampouco busca explicar o luto, apenas convida o espectador a se deleitar do espaço vazio que as perdas deixam. Ao final, resta a compreensão de que algumas pessoas se vão e algumas perguntas jamais serão respondidas. Quando as luzes se acendem e os créditos sobem, a tela se apaga, mas a presença da obra permanece. É como a sensação da infância ao deixar o clube depois de um dia inteiro de diversão. O corpo vai embora, mas o cheiro do cloro permanece na pele por horas, insistindo em lembrar que aquele momento existiu.

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