Editorial: O faturamento anticientificista da indústria wellness

Atrativos em formato de gomas são produtos da indústria do bem-estar / Imagem: Magnific

Instituída com promessas de carregar autocuidado e longevidade, seja encapsulados ou em potes atraentes, a indústria wellness (ou do bem-estar) cresce como economia. Avaliada em US$6,3 trilhões no ano de 2023, o dobro desde 2013, e com projeção de alcançar estimados US$9.8 trilhões até 2029, segundo dados fornecidos pelo “2025 Global Wellness Economy Monitor”, observa-se um setor em ascensão impulsionado pela valorização do corpo e da produtividade motivados pela cultura virtual. 

Entre suplementos, vitaminas, cosméticos, o famoso skincare de várias etapas e rotinas estéticas, há esperanças vazias que, apesar de “credibilizadas” por figuras de influência, postas em cargo de “autoridade” por mera utilização do carisma e da aparência, possuem comprovação científica de eficácia insuficiente, questionável ou sequer, estudadas. 

Produtos comercializados como soluções rápidas para crescimento capilar, como os “gummy hair”, demonstram a distância à validação científica. Em análise publicada na “Revista Questão de Ciência”, revisões acadêmicas apontam ausência de confirmações que recomendam suplementos como biotina e vitamina D para crescimento capilar em indivíduos sem deficiência nutricional. Ainda assim, campanhas do setor já foram alvo do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR) por alegações não adequadas, sustentadas por publicidade agressiva. 

A “World Health Organization” passou a utilizar o termo “infodemia” para definir a circulação massiva de informações falsas ou enganosas relacionadas também à saúde, especialmente ampliadas pelas plataformas digitais. Nesse cenário, embalagens sofisticadas, discursos pseudocientíficos e promessas milagrosas convertem inseguranças individuais em oportunidades altamente lucrativas.

Nos Estados Unidos os responsáveis por 49% das compras de produtos para a pele em farmácias são crianças e adolescentes de até 14 anos, é o que argumenta a Superinteressante. A tendência, conhecida internacionalmente como “Sephora Kids”, já desperta preocupação entre dermatologistas e especialistas sobre os impactos da adultização estética precoce. 

Em uma sociedade atingida pelos padrões de beleza, mais claros na era da conectividade, exauridos pelas redes sociais, o ecossistema de produtos que se diz em função da saúde não deixa escapar nem os mais jovens, os quais já no início da puberdade gastam energia, tempo e, o dinheiro, com reposição de colágeno e ácido hialurônico. 

O problema não está em vender, está no faturamento que não provém, como o esperado, do compromisso com a verdade e realização do que se propõe, mas é ditado pela força da desinformação e por estratégias de marketing emocional, as quais intencionam o engano em formato de trabalho de design de embalagens primoroso em capturar a atenção do consumidor.   

Primordial é o acesso à informação acompanhado da alfabetização científica e midiática da população. Em uma realidade marcada pela velocidade do consumo digital, a estética da credibilidade frequentemente vale mais do que a evidência científicamente validada. 

No ramo do sistema de mercado que propaga saúde  a dicotomia está em saber quem realmente alcança o bem-estar.

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