Artigo de opinião: O preço de morar em um bairro mais verde

A ausência de árvores é um símbolo da desigualdade urbana brasileira. Ruas mais quentes, menos áreas de lazer, pior qualidade do ar e maior exposição aos eventos climáticos revelam quem é esquecido pelo planejamento urbano. Populações mais pobres e marginalizadas recebem de forma desigual os benefícios vindos da natureza. Mas uma pergunta tem me incomodado ainda mais: o que acontece quando essas melhorias finalmente chegam?

Poucos metros separam realidades completamente distintas. De um lado, a Gávea e a Rocinha. Do outro, Cantagalo e Copacabana | Fotos: Johnny Miller

A resposta deveria ser simples. Mais árvores, mais parques e mais qualidade de vida deveriam beneficiar justamente quem passou décadas convivendo com o abandono. No entanto, em muitas cidades, quando o verde chega, os moradores vão embora. 

Essa contradição tem nome: gentrificação verde. Esse processo representa uma cena cada vez mais comum: famílias se despedem do bairro onde cresceram justamente no momento em que ele finalmente se torna um lugar melhor para viver porque já não podem pagar o preço exigido pela valorização imobiliária.

O direito ao meio ambiente equilibrado para todos é garantido pela Constituição Federal do Brasil. Na prática, porém, ele é distribuído de forma profundamente desigual. O Censo de 2022 do IBGE afirma que um em cada três brasileiros vive em ruas sem arborização. No sétimo país mais populoso do mundo, isso significa 59 milhões de pessoas vivendo em vias sem nenhuma árvore. Não estamos falando apenas de paisagens menos bonitas, mas de acesso desigual à qualidade de vida.

Já não faltam evidências de que as áreas verdes são essenciais nas cidades. Regulam a temperatura, reduzem a poluição do ar e contribuem para a saúde física e mental da população. O estudo desenvolvido por pesquisadores do Instituto de Ciência Atmosférica e Climática da Escola Federal de Tecnologia de Zurique (ETHZ), na Suíça, descobriu que cidades arborizadas podem ser até 12 °C mais frias. Em um país onde um terço da população vive em ruas sem arborização e convive com grandes ondas de calor, ampliar a cobertura verde deveria ser prioridade absoluta para reduzir a temperatura nos centros urbanos.

No entanto, as cidades brasileiras possuem uma capacidade impressionante de transformar direitos em privilégios. Mais uma vez, os números ajudam a enxergar aquilo que muitas vezes já é visível a olho nu. Uma pesquisa realizada em 2025 pelo Centro de Estudos da Favela (CEFAVELA) identificou diferenças de até 15 °C entre territórios de favelas e bairros vizinhos na cidade de São Paulo. Enquanto o Morumbi registrou temperaturas próximas de 30 °C, em Paraisópolis os termômetros chegaram a 45 °C. 

Diante desse cenário, ampliar a arborização urbana parece uma solução óbvia e necessária. E de fato é. Até o capitalismo, que tanto destruiu áreas verdes, parece já ter entendido isso e agora investe nesses espaços. O problema começa quando a lógica do mercado decide quem vai usufruir desses benefícios.

Quando um parque é construído, quando uma praça é revitalizada ou quando um bairro passa a receber investimentos ambientais, os imóveis se valorizam. Novos empreendimentos chegam, os aluguéis aumentam e o custo de vida acompanha essa valorização. Pouco a pouco, moradores que viveram décadas naquele território descobrem que não conseguem mais pagar para morar nele.

Em teoria, a chegada das melhorias ambientais deveria representar uma conquista para moradores que passaram décadas convivendo com o abandono. Na prática, representa o início de um processo de valorização imobiliária acelerada. O resultado é perverso. Aqueles que enfrentaram os anos de abandono acabam assistindo à melhoria do bairro como meros espectadores. O parque continua ali. As árvores continuam ali. Mas eles não.

A gentrificação verde acontece quando melhorias ambientais tornam o bairro mais valorizado, aumentam o custo de vida e afastam parte da população que sempre viveu ali | Colagem digital

Uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) sobre os parques Tanguá, Tingui e Barigui, de Curitiba, identificou mudanças no perfil socioeconômico da população residente em seu entorno após a criação e consolidação dessas áreas verdes. A valorização imobiliária local substituiu aos poucos moradores da região por grupos de maior renda.

 

É difícil não enxergar a ironia desse processo. Primeiro, uma população é privada dos benefícios ambientais. Depois, quando esses benefícios finalmente chegam, ela é afastada justamente por causa deles. Em alguns casos, o aumento dos aluguéis e do valor dos imóveis torna inviável permanecer no bairro. Em outros, a mudança no perfil do comércio e dos serviços produz um sentimento de não pertencimento. Uma despedida silenciosa que acontece todos os dias nas cidades brasileiras.

 

Quem deixa um bairro não abandona apenas uma casa. Quem cresceu em uma rua conhece os vizinhos, guarda memórias nos bancos da praça e nos comércios da região. Quando famílias são empurradas para outras regiões, abandonam sentimentos de pertencimento construídos ao longo de décadas.

 

Defensores desse processo argumentam que a valorização é um sinal de desenvolvimento. Discordo. Desenvolvimento que exige a expulsão dos mais vulneráveis e decide quem merece os benefícios vindos da natureza é apenas mais uma forma de desigualdade.

 

Precisamos de mais árvores, mais parques e mais áreas verdes. Mas também precisamos garantir que aqueles que esperaram décadas por essas melhorias possam permanecer para desfrutá-las. O direito ao ambiente equilibrado, garantido na Constituição, não pode custar o direito à permanência. A solução é garantir que os ganhos ambientais permaneçam acessíveis para quem sempre viveu naquele território. Caso contrário, continuaremos produzindo cidades mais verdes, mas não necessariamente mais justas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *