Não é de hoje que transferimos nossas vidas para as telas. Segundo dados da pesquisa TIC Domicílios, realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, cerca de 86% dos domicílios brasileiros têm acesso à internet. Diante de uma sociedade quase que inteiramente conectada, o rastro digital que deixamos tornou-se imenso. Essa digitalização massiva do nosso cotidiano explica por que, quando alguém parte, o luto migrou dos cemitérios para as redes sociais, por meio das diversas postagens. No entanto, o avanço recente das ferramentas de Inteligência Artificial generativa (IA) cruzou uma fronteira complexa: a tecnologia não busca mais apenas registrar uma lembrança, mas sim simular uma falsa permanência por meio da recriação de rostos e vozes de quem já morreu.
Essa urgência em desafiar a ausência física por meio da tecnologia mais avançada do momento não é um fenômeno exclusivo da nossa era digital. No século XIX, logo após o nascimento da fotografia, a sociedade desenvolveu o hábito das imagens post-mortem (pós morte), como indica o nome. As famílias posavam ao lado de seus entes queridos recém-falecidos, muitas vezes acomodando os corpos em cenários cotidianos para simular últimos momentos ao lado daquela pessoa. Naquela época, a imagem estática era o último recurso palpável contra o esquecimento. Para além da dor da despedida que motivava as pessoas a criarem essas fotos, atualmente recriar uma pessoa falecida com IA, além de mórbido e chocante, tornou-se algo lucrativo.
A novidade do momento é a tecnologia da IA para criação de fotos, vídeos e áudios, com um prompt bem explicado é fácil chegar no resultado que mais te agrada. A superficialidade nos diversos conteúdos me incomoda, principalmente nos flyers publicitários que me aparecem na rede social, é algo que me faz repensar se quero ou não aquele produto. Porém, como avanço e a melhoria dessa técnica, eu passo a não reconhecer ou até admitir que fizeram um bom trabalho, que no caso a máquina fez. Passam a fazer coisas para além de produtos visuais, utilizam o recurso para sons e vídeos, agora as empresas exploram como recriar o rosto e as vozes daqueles que já foram. Em 2023, o comercial da Volkswagen de 70 anos tinha uma mensagem sobre “passar de geração em geração”, o que é melhor para representar do que uma mãe e uma filha? Ótimo, o que surpreendeu foi o fato de ser realizado com a cantora Maria Rita e sua mãe, também cantora, Elis Regina, falecida em 1982. Para criação da imagem da mãe foi usada a técnica de deepfakes (geração de imagens, vídeos por meio da IA), mesmo que na época que a famosa cantora nem imaginaria que isso pudesse existir.
O vácuo legislativo e ético sobre a utilização do direito de imagem da pessoa já falecida mobiliza as estruturas jurídicas do país. O debate ganhou força com o Projeto de Lei nº 3592/2023, que busca exigir a autorização expressa do indivíduo, ainda em vida, para que sua imagem seja recriada por Inteligência Artificial pós-morte com objetivo de preservar a dignidade e a privacidade. Atualmente, o Código Civil Brasileiro permite que os herdeiros tomem essa decisão, como foi no caso da Maria Rita para o uso no comercial, o que frequentemente abre margem para a mercantilização da saudade em campanhas publicitárias ou produtos tecnológicos. O projeto de lei, junto dessas inovações, cria um dilema ético profundo, pois ressuscitar digitalmente uma pessoa para atender aos desejos do mercado ou ao apego dos vivos desrespeita ou não a biografia e a dignidade de quem não pode mais dar o seu consentimento.
Apesar do impasse legal e da possível distorção da história real do falecido, há um impacto psicológico no processo de luto dos que ficam. A psicologia defende que a dor da perda, embora devastadora, exige a aceitação da ausência para que a cicatrização aconteça. Aplicativos e ferramentas que prometem manter conversas automatizadas com avatares de parentes mortos ou criar novas imagens com pessoas que já se foram, criam uma ilusão de eternidade que adia o adeus definitivo. Em vez de ajudar no processo da perda, a tecnologia anestesia a realidade e prende os vivos em um estado de negação permanente, transformando a saudade saudável em uma busca por mais momentos com alguém que não está mais aqui.
A existência humana é predestinada à finitude, todo mundo sabe que um dia irá partir e que as pessoas que amam irão partir também, a vida é feita, justamente, de capítulos que se encerram. A Inteligência Artificial pode simular a voz e os trejeitos da matéria, mas nunca a alma. Diante de um mundo que tenta hiperconectar até mesmo o que já se foi, defender o direito de imagem que aquela pessoa teve em vida e respeitar o silêncio de quem partiu torna-se uma pauta urgente. Permitir que as pessoas partam por inteiro e aceitar a dor do ponto final é, em última análise, o ato mais profundo de amor, respeito e dignidade que podemos oferecer a quem amamos.