Crônica: A Jornada do herói

Fábio abria os olhos antes mesmo do alarme tocar. Pegava o celular, conferia as horas e percebia que faltava apenas um minuto para o despertador anunciar mais um dia igual aos outros. Levantava-se, calçava os chinelos e caminhava até o banheiro. No espelho, encontrava um rosto cansado. Havia dias que não dormia mais de seis horas por noite.

Depois do banho quente, vestia o uniforme da loja onde trabalhava, em um shopping da cidade. Descia as escadas, ligava a televisão e deixava as notícias do jornal da manhã passarem enquanto preparava seu café. Três ovos, um pão integral, um copo de leite e uma dose de whey protein. A rotina era tão automática que ele nem pensava mais no que estava fazendo.

Naquela manhã, porém, uma notícia dominava os noticiários. Um fisiculturista de apenas 22 anos havia sido hospitalizado em estado grave. As suspeitas apontavam para o uso excessivo de substâncias destinadas a melhorar o desempenho físico. O caso não era isolado. Nos últimos meses, notícias semelhantes passaram a ocupar espaço frequente nos jornais e nas redes sociais.

Fábio, entretanto, não ouviu. Estava concentrado em misturar o suplemento na garrafa e calcular os horários do treino. Talvez isso fosse o mais preocupante. A busca pelo corpo perfeito nunca foi tão visível.

Nas redes sociais, os músculos definidos rendem curtidas e contratos. Por trás de tudo isso, cresce uma indústria que vende resultados rápidos. A história daquele jovem, embora trágica, era vista por muitos como um ato de coragem.

— Ele fez o que tinha que ser feito.

Era o que diziam.

Para Fábio, aquele garoto era um herói. Mas ele estava tão preso à própria rotina que nem percebeu que seu herói havia morrido.

Fábio terminou o café, guardou a garrafa na mochila, desligou a televisão e saiu em direção ao ponto de ônibus. Não sabia da notícia. Talvez, quando descobrisse, pensasse que aquilo acontecia apenas com os outros.

Naquela manhã, Fábio pegou o T131, sentido Terminal Central. Seu destino era o shopping. No fone de ouvido tocava Michael Jackson. Ele estava viciado nas músicas após assistir ao filme. Por causa do volume alto, não conseguia ouvir os burburinhos dentro do ônibus.

— Nossa, ele era tão novo.
— Ele fez o que tinha que ser feito. Arriscou tudo.
— Só assim para chegar naquele nível.
— As pessoas têm que tomar cuidado. Isso deveria ser crime. Essas drogas estão matando nossos jovens.

As opiniões eram diferentes, como sempre acontecia quando um caso como aquele vinha à tona. Mas o que as pessoas não percebiam era que aquilo era apenas a ponta do iceberg. Centenas de jovens já demonstraram problemas relacionados ao uso dessas substâncias. Embora seu uso seja proibido em diversas situações, a busca pelo resultado rápido continua sendo romantizada. É a chamada jornada do herói, vendida todos os dias nas telas dos celulares.

Fábio desceu na estação do shopping e começou seu trabalho. Passou oito horas ali sem ler notícias, apenas oferecendo roupas para clientes mal-humorados. À noite, quando chegou em casa, finalmente assistiu ao jornal. E lá estava a notícia novamente.
Seu ídolo estava morto.

Morte por infarto. A principal suspeita era de que o uso de substâncias para melhorar o desempenho tivesse contribuído para o problema. Além disso, os médicos informaram que ele já possuía um histórico de complicações cardíacas.

Fábio não pensou duas vezes. Pegou o celular e entrou no Instagram da marca que patrocinava o fisiculturista. Quando abriu o perfil, teve uma nova surpresa.

“Conheça nosso novo atleta. Júlio Medeiros tem apenas 23 anos e já possui um físico impressionante!”

Fábio procurou alguma publicação sobre a morte. Não encontrou. Havia apenas propagandas, vídeos de treino e anúncios sobre o novo atleta.
Achou estranho.

Mas, após três rodadas no feed, já estava seguindo Júlio e assistindo às suas dicas de treinamento. A morte de um jovem atleta foi capaz de gerar homenagens por alguns dias, mas não foi suficiente para interromper os patrocinadores, e, no meio desse ciclo, milhares de jovens como Fábio continuam acreditando que o próximo ídolo terá um destino diferente, sem perceber que estão sendo atraídos pela mesma promessa que levou tantos outros ao fim.

Imagem: Nikolai Kolosov/Pexels

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