Resenha: CARRANCA – da voz do Brasil aos platôs da Etiópia

Capa do álbum Carranca / Reprodução: Spotify

CARRANCA, esse é o nome dado ao terceiro álbum de estúdio de Lorena Urias, popularmente chamada de Urias. Lançado no dia 7 de Outubro de 2025, o álbum reúne 14 faixas, contando com 5 colaborações com outros artistas. 

Natural da cidade de Uberlândia – MG, a artista mineira carrega uma discografia eclética, transpassando elementos eletrônicos experimentais, R&B, hip hop e MPB. A mistura coesa desses gêneros, aliada a letras afiadas que refletem sua identidade como mulher trans negra, revelam a potência da música de Urias.

Na tradição popular, as carrancas nomeiam estátuas entalhadas em madeira de rostos monstruosos, essas imagens eram colocadas nas proas dos barcos para afastar espíritos ruins. O álbum de mesmo nome, carrega em essência as raízes de uma identidade à deriva, o negro. Urias, nesta obra, traz à tona a beleza de celebrar a história e a força de um ontem que formou o hoje, sem esquecer da dor daqueles que foram fincados nessa terra.  

Em CARRANCA, a uberlandense trouxe como temática principal para esse álbum os aspectos que circundam as origens afro-diaspóricas do povo brasileiro, dialogando com sua identidade enquanto uma mulher negra. Urias reflete de forma sensível desde as mazelas trazidas pela escravidão e que se instalam até hoje no país – como na intro “A Liberdade” e na faixa “Quando a Fonte Secar”, até um grito de liberdade e um movimento de retorno e celebração dessas raízes.

De forma brilhante, a artista utiliza diversas metáforas para a construção do passado e do presente da população negra do país. Podendo destacar por exemplo o oceano, que nesta produção, reflete um espaço de movimentos que divergem, mas se entrelaçam pela história do país: ao oceano foram lançados homens para uma terra desconhecida, que hoje retornam a ele para se conectarem com suas raízes.

Outra metáfora utilizada com sensibilidade é o retorno aos platôs da Etiópia – local estimado como berço da humanidade. Urias mostra beleza em um movimento de reconexão com as origens africanas que permeiam os seres humanos, bem como o encontro e valorização de uma identidade negada. Retornar à Etiópia, aqui, representa um encontro consigo. A metáfora é apresentada no Interlúdio “Oração” e também na faixa “Etiópia”. 

Urias carrega as raízes e nuances de uma ancestralidade africana não somente nas faixas, como também nos visuais. A artista optou por um uso de cores como branco, preto, azul royal e vermelho, sendo essa última cor uma referência ao orixá Exú. Outros elementos de extrema importância é a pena vermelha sob a testa, que aparece em alguns visualizers, e representam ìkódídẹ – símbolo de proteção e vitalidade ligado à Oxalá. 

Dentre as 14 músicas que compõem o álbum, destacam-se faixas como: “Deus”, “Vontade de Voar”, “Navegar” e a estrondosa “Voz do Brasil” – música que alcançou números de streams grandiosos e rendeu trends nas redes sociais. Essa última traz à tona elementos estereotipados da cultura brasileira , como crítica a essa visão sexualizada do nosso país.

O terceiro grande projeto artístico de Urias contou com 5 participações: Criolo, Giovani Cidreira, Don L, Marcinha do Corintho e Major RD. Aqui, se faz como necessidade, destacar a participação de Marcinha do Corintho, que deu voz aos 3 interlúdios de Carranca: “A Liberdade”, “Oração” e “Eterna”.

Trazer Marcinha dá outra perspectiva ao sentido de herança, aqui, Urias nos lembra que além de negra, ela é uma mulher trans, então a participação de um dos principais nomes da comunidade trans, que animou as noites estrangeiras e paulistanas durante os anos 80 e 90, dá uma potência singular à obra. 

CARRANCA nos mostra o belo de onde viemos, a contradição de onde estamos, e o retorno a nós mesmos. Com metáforas afloradas e a sensibilidade de suas vivências, Urias nos entrega um álbum que explora um outro olhar sobre suas raízes ao mesmo tempo que analisa as condições atuais da negritude e do ser brasileiro. As músicas possuem uma boa sonoridade, abarcando principalmente elementos do R&B, hip-hop, MPB e rap – esse último especialmente com suas parcerias.

Urias nos convida a olhar para o passado para nos entender no presente, uma voz no Brasil que ecoa nos platôs da Etiópia.

 

Confira agora as faixas de CARRANCA:

 

  • A Liberdade (Intro)
  • DEUS (part. Criolo)
  • Quando a Fonte Secar
  • Vénus Noir
  • Vontade de Voar
  • Oração (Interlúdio)
  • Etiópia
  • Águas de Um Mar Azul
  • Navegar
  • Se Eu Fosse Você
  • Herança (part. Giovani Cidreira)
  • Paciência (part. Don L)
  • Eterna (Outro)
  • Voz do Brasil (part. Major RD)

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