Resenha: O “EQUILIBRIVM” desequilibrado, mas muito brasileiro, de Anitta

O álbum foi lançado em 16 de abril de 2026 | Reprodução: Internet

“Eu não mudo só de cara, eu gosto de mudar dentro”, conta Anitta sobre o seu novo álbum “EQUILIBRIVM” lançado em 2026. Rainha e precursora do funk brasileiro, a artista inova ao abraçar ritmos típicos do Brasil, enquanto discute amor e religiosidade em faixas lotadas de participações especiais na sua mais nova obra musical.

“EQUILIBRIVM” é fruto de um período extenso de férias de Anitta desde o lançamento de seu último álbum de estúdio, concorrente ao Grammy de 2025, “Funk Generation” (2024). Neste intervalo entre discos, a cantora afirma que já compunha canções muito diferentes daquelas com as quais vinha (e vem) trabalhando comercialmente, como na turnê e nos EPs dos “Ensaios da Anitta”(2024 e 2026).

O novo trabalho parece revelar uma nova, verdadeira e liberta Larissa, nome de batismo da artista. Com Nídia Aranha, cabeça criativa da obra, e uma longa lista de compositores, Anitta coloca o funk eletrônico em segundo plano para explorar lirismo, brasilidade e falar, abertamente, sobre sua trajetória e suas vivências no candomblé.

A temática religiosa não costuma vir sozinha. Em canções como “Desgraça”, faixa que abre o disco e uma das poucas que Anitta canta sozinha, os jogos de búzios, as encruzilhadas, os rituais e rezas surgem quase como um apoio para que Anitta cante sobre querer distância de um interesse amoroso. O mesmo acontece em “Mandinga”, música cantada em parceria com o fenômeno Marina Sena e com sample, bem utilizado, de “Canto de Ossanha” de Baden Powell e Vinícius de Moraes. 

A mistura da religiosidade com o amor aproxima as práticas religiosas do cotidiano e do público abrangente da cantora que não é, em grande parte, praticante das religiões de matriz africana. Ao mesmo tempo, essa mescla retira uma força lírica importante da temática candomblecista, que poderia ser mais bem explorada. Parte dessa lacuna é preenchida por outras canções como “Ternura”, um feat com a novata Melly em homenagem à orixá das águas doces Oxum, e “Nanã”, de longe uma das maiores canções da obra.

Interpretada em conjunto com Rincon Sapiência e KING Saints, a canção é um espetáculo à parte. Trata-se de um funk brasileiro quase cru, que abusa dos tambores tradicionais dos terreiros para compor a base rítmica, que é complementada pelo sample de “Cordeiro de Nanã”, a clássica canção de Os Tincoãs. A letra discute leveza, paz e feminilidade ao trazer uma mulher, Nanã, como a mãe de toda a humanidade.

Com certeza, o que chama atenção em “EQUILIBRIVM” é a capacidade que Anitta tem de transitar por diferentes estilos musicais da música popular brasileira contemporânea. Seu maior trunfo é conseguir se apropriar desses gêneros por meio de artistas consolidados em cada um deles: seja na baianidade de Luedji Luna em “Bemba”, nas batidas brasileiras ritmadas de Liniker em “Caminhador” ou no R&B soul latino de Os Garotin em “Caso de amor”.

Apesar de ser divertido e um divisor de águas na carreira da artista, “EQUILIBRIVM” não é tão equilibrado assim e peca na coesão. “So much love”, “Várias Quejas”, versão em espanhol do sucesso do Olodum “Várias queixas”, e “Pinterest” ocupam a segunda metade do álbum de 15 faixas e destoam de toda a obra.  

Anitta parece querer abraçar o Brasil sem deixar de lado a sua carreira internacional e, por isso, falha. São canções que, apesar de se inspirarem em ritmos brasileiros, são cantadas em outros idiomas e falam de amor sob uma ótica completamente diferente do resto do disco. “Choka Choka”, feat com Shakira, também partilha do mesmo problema e poderia ter sido lançada como um single à parte.

Na última canção do álbum, Anitta procura “algo que vale mais que ouro”. Com “EQUILIBRIVM”, ela parece ter encontrado exatamente isso na sua carreira: um disco imperfeito, mas com personalidade e conceito, além da ginga brasileira. E o mais importante, faz tudo isso sem deixar de ser ela mesma e, ao mesmo tempo, popular.

 

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