O luto da meninice

Em uma manhã escolar, entre tantas meninas e meninos, um dedo se levanta e o pedido vem logo em seguida: “Professora, posso ir ao banheiro?”. Com muita hesitação, aquela figura intrigante e detentora do conhecimento, concorda com o pedido daquela menina tão jovem. Mas antes, de modo similar à um ambiente de tráfico de drogas, a colega de trás passa um pequeno pacote envolto em plástico, ligeira como o vento, e com medo de alguém ver aquele passe de um produto quase ilegal. Diante daquela sala, com seus 40 alunos, entre cadeiras e mesas com pés de aço e tampos de MDF, a aluna sai de forma tão repentina quanto aconteceu o repasse do objeto quadrado.

Entre tantos burburinhos e olhares curiosos, a menina esguia volta do banheiro — marcado pelo cheiro de desinfetante — com uma expressão envergonhada, como se tivesse acabado de cometer um dos piores crimes da sua vida. Uma constatação veio em sua cabeça: REALMENTE VIREI MOCINHA. Aos 12 anos, chegava o momento de jogar as bonecas fora, nada de correr na rua ou se lambuzar com sorvete, agora a circunstância era outra, e os assuntos também. No contexto de dores sem direção, músculos que cresciam para frente, e um órgão que se contraia para acontecer a hemorragia evidente, a menina-criança se tornava adulta do dia para a noite, como se em 1 minuto, o assunto entre as amigas deveria ser diferente: sexo, meninos, casamento e filhos. Aliás, os meninos viram mocinhos quando?

Mal sabia aquela jovem, que a partir daquele momento, suas dores virariam motivo de chacota e a nova cor que suas roupas ganhariam, sinônimo de constrangimento. Além de entender o ponteiro do relógio, o horário do ônibus, a vida, limpar casa e mais um tanto de obrigações, agora aparece um novo ciclo: o menstrual. E o pior de tudo, a mocinha deve saber lidar com isso. Enquanto a ciência está preocupada com a virilidade masculina, ou tanto faz um menino de 16 anos não saber varrer um chão, aquela menina de 12 anos, ou até menos, sofre calada, sem apoio, perdendo a infância de forma silenciosa. A orientação não deveria se limitar a abrir aquele pequeno pacote e sua usabilidade: os mocinhos não devem saber sobre o assunto?

No dia 28/05, conhecido como o Dia Internacional da Dignidade Menstrual, vem o questionamento sobre a existência de uma data para algo que não deveria ser um problema, mas conclui-se a ingenuidade desse pensamento, e a importância de um dia assim recobra as faculdades mentais de algo que precisa ser falado. Não é possível que outro pequeno pacote, com seu conteúdo de látex, começou a ser distribuído de forma gratuita na década de 90, mas a política de dignidade menstrual só foi instituída em 2023. Nesse ponto, não entenda mal as coisas, é lógico que distribuir a Camisa de Vênus é importante, mas em um contexto em que 15% das meninas deixam de ir à escola por não poder comprar o “objeto de tráfico ilegal”, é de se questionar a eficácia de algumas coisas.

Por favor! alguém finda o dia em que normalizaram uma criança sentir dores, sair de casa com suas naturezas sangrando e ainda falarem que ela não pode ter sua meninice mais. Mas tudo bem. Os garotos podem falar dos seus órgãos de forma quase anunciada, porque é normal, é só um moleque. Também é só um moleque quando ele sente asco pela menina dolorida. Certamente a educação dessas crianças tem sido um problema, mas isso é assunto para outra crônica. Se alguém já se perguntou sobre o dia que indivíduos do sexo feminino perderam sua autonomia e dignidade, digo que foi a partir do momento em que dois cromossomos X se juntaram, e se o outro questionamento for sobre quando a menina-moça vira adulta, aparentemente é quando ela tem uma perca dos seus glóbulos vermelhos, a partir daí, veja, o luto pela meninice acontece.

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