Dentre as diversas manifestações culturais espalhadas pelo Brasil, o futebol se destaca por unir diferentes pessoas em um mesmo propósito: torcer pelo seu time. No entanto, chegar ao estádio e assistir aos 90 minutos de uma partida tornou-se algo incerto. Não pelo gol que pode sair ou pelo título que será conquistado, mas pelas recorrentes ocorrências de violência envolvendo torcidas. Segundo o Relatório Violências no Futebol, do Observatório Social do Futebol, em 2023 foram registrados 158 casos de violência dentro e fora dos estádios, revelando um problema que afasta cada vez mais os torcedores.
A sensação de insegurança é um dos principais motivos para o afastamento do torcedor dos estádios. Os confrontos não têm hora para começar ou terminar e frequentemente envolvem agressões físicas, depredação de patrimônio e invasões de campo. De acordo com o Relatório Violências no Futebol, do Observatório Social do Futebol, 87% dos casos registrados em 2023 envolveram violência física, demonstrando que o problema vai muito além de simples provocações entre torcedores. Em muitos casos, o simples fato de torcer para a equipe rival já é suficiente para transformar alguém em alvo de agressões. Como consequência, usar a camisa do próprio time em clássicos passou a exigir cautela.
Também é importante refletir sobre o que motiva essas agressões. Um gol sofrido, um título perdido ou até mesmo uma provocação podem servir de estopim para confrontos. Em alguns casos, torcedores chegam a se agredir antes mesmo do início da partida, a quilômetros de distância do estádio. Esse comportamento não é uma percepção isolada: o Relatório Violências no Futebol aponta que diversas ocorrências foram registradas longe das arenas esportivas, comprovando que o problema ultrapassa os limites do estádio. Quando situações como essas passam a ser vistas com naturalidade, perde-se a noção de que o futebol deveria ser um espaço de convivência, e não de violência.
As torcidas organizadas costumam estar entre as protagonistas dos episódios de violência. Embora sejam formadas por torcedores que acompanham regularmente seus clubes, alguns grupos acabam se envolvendo em conflitos que extrapolam os limites da rivalidade esportiva. Em Minas Gerais, por exemplo, a Galoucura, do Atlético Mineiro, e a Máfia Azul, do Cruzeiro, foram proibidas de frequentar estádios por dois anos após um confronto que resultou na morte de um torcedor. A decisão do Ministério Público de Minas Gerais demonstra a gravidade do problema, que está longe de ser regional, já que episódios semelhantes e punições também são registrados em diversas partes do país.
Uma partida de futebol é tradicionalmente marcada pela presença das duas torcidas, independentemente da rivalidade envolvida. Entretanto, o aumento dos episódios de violência fez com que algumas partidas passassem a ser disputadas com torcida única, geralmente composta apenas pelos torcedores do clube mandante. Em determinadas situações, após avaliação das forças de segurança, apenas uma pequena parcela dos ingressos é destinada aos torcedores visitantes. Trata-se de uma medida que evidencia como a violência vem limitando a experiência do torcedor e alterando a própria dinâmica do espetáculo esportivo. Embora a torcida única seja frequentemente defendida como uma medida de segurança e, em alguns casos, esteja associada à redução de confrontos entre torcedores, a necessidade de restringir a presença de uma das torcidas deixa claro como a violência tem alterado a própria dinâmica do futebol.
Para reverter esse quadro de violência, é necessário um trabalho mais amplo das forças de segurança, com investimentos em prevenção, identificação e punição dos responsáveis pelos atos de agressão. Não se pode aceitar que torcedores tenham medo de ir ao estádio. O único receio deveria ser o de perder uma partida ou um título. O futebol nasceu para unir pessoas em torno de uma paixão comum e não para colocar vidas em risco. Que um dia seja possível sair de casa com a certeza de que o retorno será marcado apenas pelas lembranças do jogo, e não por episódios de violência.