João Marcelo Pozatti – O uberlandense típico não nasce, estreia. E não estreia em qualquer palco: vem ao mundo já com um queijo meia-cura debaixo do braço e um Uberlândia Shopping no coração. Cresce ouvindo que “aqui é diferente” — e acredita. Não é de se espantar que, ao conhecer alguém de fora, solte a clássica saudação: “Cê já veio em Uberlândia? Não? Ah, mas então cê não conhece Minas, não…”
O sotaque? É uma obra de engenharia digna de quem tem como referência a avenida Rondon Pacheco (ou seria riacho?): mineirice calibrada para não assustar paulista, com um “uai” aqui e ali para lembrar que é raiz, mas com aquele “porta” articulado demais pra ser caipira. Se fala “cafézin”, é pra mostrar afeto; se oferece “pão de queijo”, é pra mostrar superioridade gastronômica.
Na mesa de bar, se orgulha de dizer que Uberlândia não é interior — é “metrópole do Triângulo”. Se alguém ousa comparar com outra cidade mineira, a sobrancelha arqueia: “Ah, mas BH é diferente… aqui é mais organizado, mais desenvolvido, sabe?”. No fundo, ele acredita que o Brasil se divide em três categorias: Uberlândia, o resto de Minas e o resto do mundo.
O uberlandense é cosmopolita de rodoviária: conhece o planeta inteiro, desde que caiba num bate e volta até Goiania ou numa conexão no aeroporto de Confins. Mas isso não impede de dar opinião sobre qualquer canto do mundo como se tivesse apartamento lá. Afinal, “Uberlândia é tão boa que quem sai volta”.
E assim segue, com sua combinação única de hospitalidade calculada e orgulho desmedido, pronto para te receber de braços abertos — mas só depois de explicar, por que “aqui é melhor que aí”.
imagem: Youtube/Canal Uberlândia+
