Rua sem saída

Rayane Timóteo – Em um país em que uma população negra é marcada por violência diariamente, sendo objeto de uma escolha seletiva sobre a sua existência, surgem registros em forma de  diversos versos que denunciam essa realidade. Este veículo acredita que a arte também é um espaço de luta política, crítica social e resistência frente às violências vividas por essa população. 

   Com 35 anos desde o seu lançamento, Holocausto Urbano, primeiro trabalho do Racionais MCs, expõe e denuncia, a realidade vivida pela juventude negra e periférica. Classificado como um extended play, por ser maior que um single e menor que um álbum tradicional, é composto por seis faixas, duas delas lançadas anos antes na coletânea da Consciência Negra.

 Diferente de outros lançamentos posteriores e mais conhecidos do grupo, neste trabalho as músicas são mais curtas e diretas, mas não perdem em sua potência ao abordar o Holocausto Urbano vivido na década de 1990 e ainda presente na sociedade brasileira. 

O álbum deixa marcas de como as mulheres eram percebidas, especialmente na forma problemática com que são retratadas na faixa “Mulheres Vulgares”. O conteúdo evidencia uma demarcação clara do pensamento cultural da época, o que revela contradições de representações de gênero, presentes nas letras, na sociedade e no próprio rap, que hoje demandam uma escuta crítica.   

 A letra de “Pânico da Zona Sul” nos traz uma visão de como ocorriam as violências sofridas pela população preta e marginalizada: “Justiceiros são chamados por eles mesmos, matam, humilham e dão tiros a esmo”. 

A forma explícita como a violência é citada mostra que existia e ainda existe, na sociedade brasileira, um controle sobre a vida e a morte de certas populações racializadas. Esse conceito foi desenvolvido pelo historiador, cientista político e filósofo Achille Mbembe como “Necropolítica”.    

 Mesmo depois de trinta e cinco anos, os versos do “álbum” conseguem ser bastante atuais. Aproximadamente 90% dos mortos por policiais são negros, segundo o estudo realizado no ano de 2023 pela Rede de Observatórios da Segurança, divulgado pela Agência Brasil. 

O dado revela a permanência da morte como condição da população negra, em sua maioria jovens entre 18 e 29 anos, sendo a faixa etária mais atingida. O medo constante e a ameaça por simplesmente ocupar um corpo negro em áreas urbanas, seguem presentes na sociedade.

 O Holocausto Urbano, cantado pelo grupo Racionais MC´s, representa a escolha política de quem não tem o privilégio de, apenas, continuar vivo, sendo a cor de pele um alvo constante de violência cotidiana.

E mesmo depois de anos, a pergunta do grupo na faixa “Racistas Otários” continua ecoando nos versos, dentro e fora do rap, como denúncia e reflexão: “Enquanto você sossegado foge dessa questão, eles circulam na rua com a descrição, que é parecida com você: cor, cabelo, feição. Será que eles veem em nós o marginal padrão?” Uma pergunta sem resposta, mas com enormes consequências. 

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