João Pedro França Peron Propostas artísticas que dependem de serem realizadas em escalas menores são descartadas
Artistas estrangeiros estão acostumados a virem ao Brasil para performarem em grandes espetáculos, muitas vezes em estádios de futebol imensos, para abrigarem a maior quantidade de pessoas. Quando, por exemplo, a banda Coldplay veio ao Brasil, apresentou-se 11 vezes, todas em estádios lotados, sendo que, em São Paulo – em apresentações do estádio do Morumbi –, cada noite contou com um público de cerca de 70 mil pessoas.
Isso torna a vinda de artistas estrangeiros regida por um mercado, que pode limitar a proposta artística de determinados cantores, que procuram uma experiência um pouco mais intimista. Nesse ano, a artista global Billie Eilish estava realizando negociações para trazer sua atual turnê, que conta com a presença de todas as músicas de seu último álbum “HIT ME HARD AND SOFT”. Entretanto, Billie queria se apresentar em locais menores, com até 30 mil pessoas, visto que a proposta de seu show, com luzes e um palco central, seria mais aproveitado nessa situação.
A produtora Live Nation, que traria a turnê da cantora para o Brasil mantém um acordo de exclusividade com o São Paulo F.C, que tem o Morumbi como casa (mesmo estádio em que o Coldplay performou em 2023). Como não seria possível realizar apresentações em escalas menores, Billie optou por cancelar a turnê ao Brasil, deixando o país de fora da lista global.
Outro ponto que esse formato limitador de apresentações infringe é por eliminar números que precisam de um teto, algo que os estádios não conseguem entregar. Um exemplo é a turnê “GUTS WORLD TOUR” da cantora Olivia Rodrigo, que, em um determinado momento, sobrevoa a plateia sentada em uma estrela gigante enquanto performa a canção “lacy”, um dos momentos mais marcantes da turnê.
Porém, quando a artista veio performar no Brasil, com um show solo na cidade de “Curitiba” (além de uma apresentação no festival Lollapalooza, em São Paulo), devido ao estádio em que se apresentou (Couto Pereira) – o primeiro show em um estádio da carreira da cantora – esse momento foi cortado, pois não havia estrutura para realizá-lo.
Portanto, a forma como esse mercado de shows globais atua no Brasil prejudica, muitas vezes, as visões que os próprios artistas tinham para suas apresentações. Se a possibilidade de realizar shows menores, fora de estádios, fosse possível, muitos artistas trariam suas turnês solos para nosso país, ao invés de se apresentarem somente em festivais, com versões modificadas, às vezes inteiramente, de seus shows, o que beneficiaria o país.