Sofia dos Reis
Na sociedade atual, descansar se tornou sinônimo de culpa. A exigência constante pela produtividade e por um desempenho ininterrupto transforma qualquer pausa em sinal de fraqueza ou preguiça. Essa lógica, sustentada por ideais capitalistas, impõe uma violência silenciosa: o descanso é visto como perda de tempo. Neste cenário, cresce o número de pessoas exaustas, doentes e emocionalmente fragilizadas.
“Sociedade do Cansaço” é um conceito desenvolvido por Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano. Para ele, vivemos em uma era marcada pela chamada “violência da positividade”, um tipo de pressão que não impõe limites por meio da proibição, mas pelo excesso de possibilidades e metas. Essa lógica transforma o indivíduo em uma espécie de auto-sabotador: ele se cobra, se explora e se esgota, tudo em nome de um ideal de sucesso que atende, principalmente, aos interesses de um sistema capitalista.
Atualmente, acredito que a incessante busca pela produtividade, em todos os campos da vida, seja um fator determinante desse comportamento que é tão comum entre os indivíduos. É preciso ser produtivo, caso contrário, você é inútil para a sociedade. De acordo com o pesquisador especialista em gestão de tempo, Jonathan Gershuny, estar e ser ocupado é quase um símbolo de honra.
Dito isso, um dos principais desdobramentos disso pode ser percebido através de uma síndrome intitulada “burnout”. A qual, em consonância com o Ministério da Saúde, pode ser compreendida como um distúrbio emocional, cujos sintomas são exaustão extrema, estresse e esgotamento físico e mental, resultantes de trabalhos desgastantes e feitos em excesso.
Acerca disso, pode-se relacionar o levantamento feito pela empresa de tecnologia, Microsoft, cerca de 48% dos trabalhadores de todo o mundo têm sua saúde afetada pelo “burnout” e, quando o assunto é o Brasil, a estatística é de 38%. Por que existem tantas pessoas esgotadas pelo trabalho e não estão fazendo nada sobre isso? Em minha perspectiva, a resposta é simples: é rentável e lucrativo fazer com que as pessoas trabalhem cada vez mais e alimentar esse ciclo vicioso que é a produtividade.
Em uma pesquisa feita pela Universidade de São Francisco foi confirmado que aqueles que separam parte do tempo para uma tarefa que tem como resultado o relaxamento e a diversão tem a sua produtividade aumentada.
No entanto, nos dias de hoje, quase nada é feito por que se gosta ou para obter momentos de lazer e prazer. Quando não acontece das pessoas gastarem todas as suas energias no trabalho ou no tempo que gastam trabalhando, os momentos de descontração se tornam, também, atividades que demandam uma quantidade elevada de horas do dia, além do alcance da perfeição. O que era para ser um tempo destinado ao relaxamento, na verdade, não passa de mais um motivo para exercer a competitividade e o perfeccionismo.
Exemplos disso são os “Bobbie Goods”, desenhos para colorir que têm adquirido popularidade nas redes sociais. Que, inicialmente, tinham como objetivo principal promover o distanciamento das telas e tempo de descanso, viraram algo muito maior. Agora, é preciso ter as canetas do momento, saber fazer todos os tipos de texturas, sombras e efeitos de degradê, não basta apenas colorir por colorir. O momento de relaxar se tornou pressão também.
Para reverter esse cenário, é necessário que políticas públicas de saúde mental e bem-estar se tornem prioridade nos ambientes de trabalho e nas escolas. Além disso, campanhas de conscientização sobre o direito ao descanso e o perigo da hiperprodutividade podem reeducar a população sobre os limites saudáveis da vida moderna.
Enquanto o descanso for tratado como luxo, as pessoas continuarão adoecendo em nome de uma produtividade que serve mais ao sistema do que a si mesmos. Entre a culpa e a cobrança, esquecem-se que o corpo e a mente também precisam de respiro. Descansar é viver fora do modo automático, e isso, hoje, é revolucionário.