Laura Malavolta
Sabe quando a gente olha para um placar e percebe que o jogo ainda está longe de acabar? É exatamente essa sensação que tenho ao ver os dados mais recentes sobre mulheres em cargos de liderança no Brasil. Apesar de ser maioria na força de trabalho e ter, em média, mais anos de estudo do que os homens, elas ocupam apenas 39% das posições de liderança, segundo um levantamento do LinkedIn e da ONU Mulheres publicado pelo JC Online em março de 2025.
E quando o foco vai para o topo da pirâmide, a coisa fica ainda mais desigual. Um estudo da Talenses com o Insper revelou que apenas 17,4% das empresas no Brasil têm mulheres em cargos de presidência. Entre mais de 220 empresas analisadas, menos de 40 têm uma mulher no comando. Dá pra acreditar? Em pleno 2025, ainda estamos brigando para sermos ouvidas nas mesas de decisão.
Não é só uma questão de justiça, é também de resultado. Pesquisas do Insper apontam que municípios com mais mulheres na política registram até 24% menos mortalidade infantil e 7% mais investimentos em educação e saúde. Ou seja, quando elas lideram, a vida melhora. Literalmente.
Mesmo com essas evidências, ainda estamos muito atrás. A Talenses projeta que, se o ritmo atual continuar, vamos levar mais de 160 anos para alcançar a paridade de gênero nas estruturas corporativas. Sim, 160 anos. Quando li esse número, confesso que parei por um segundo. Porque isso não é futuro… é atraso.
O mais chocante é que as mulheres já estão preparadas. Elas têm formação, experiência, visão estratégica. Mas enfrentam, todos os dias, barreiras invisíveis: viés inconsciente, falta de mentoria, ambientes masculinizados e uma cultura que ainda confunde autoridade com agressividade quando vem de uma mulher.
A boa notícia é que algumas empresas estão acordando. Tem gente apostando em programas de mentoria feminina, metas de contratação inclusiva, processos seletivos com avaliação às cegas. De grão em grão, essas ações estão movimentando o jogo. Ainda devagar, é verdade. Mas já dá pra sentir um vento novo soprando.
E é aqui que o futebol entra como metáfora e como exemplo. O avanço das mulheres no esporte tem sido um empurrão necessário. A cada técnica que assume um time, a cada diretora que comanda uma federação, a cada comentarista que brilha na TV, mais natural se torna ver mulheres em posições de liderança.
Um exemplo disso é Leila Pereira. Dentre os os 20 clubes da série A, o Palmeiras é o único que é dirigido por uma mulher. Antes de ser presidente de um dos maiores times do Brasil, ela já era jornalista, advogada e empresária. Leila se destaca não só pela representatividade, dando esperança e visibilidade para que outras mulheres sonhem em ocupar cargos como o dela, mas também é exemplo de força e resistência quando o assunto é dar a cara a tapa e se impor sem medo, mesmo sendo a única figura feminina em um ambiente tão predominantemente masculino.
Já o futebol feminino brasileiro, inclusive, tem sido uma vitrine de protagonismo. Elas enfrentam a desvalorização estrutural, sim, mas também mostram que competência não tem gênero. Quando Marta entra em campo, ela representa muito mais do que habilidade: representa um espaço conquistado na marra.
Esse movimento tem inspirado mudanças também fora do campo. Muitas empresas, ao verem o impacto da presença feminina no esporte, começaram a repensar suas estruturas internas. Se uma mulher pode liderar um time numa final de campeonato, por que não pode liderar uma multinacional?
Claro que ainda tem quem torça o nariz. Muita gente ainda associa liderança a uma figura masculina, mais dura, mais “racional”. Mas já passou da hora de desconstruir esse estereótipo. Liderança é sobre visão, empatia e estratégia, e nisso, mulheres não ficam devendo em nada.
O Brasil tem tudo para ser referência. Tem talento, tem preparo, tem mulher capacitada em todos os cantos. Falta coragem nas estruturas para abrir espaço real. Falta ação, falta compromisso… porque discurso bonito sem prática é só mais uma entrevista coletiva vazia!
A igualdade de gênero nas lideranças não é um capricho, é uma necessidade urgente e uma oportunidade gigante. O jogo está rolando e o placar ainda não é favorável pra gente. Mas com as jogadoras certas no campo e decisões bem feitas fora dele, esse gol da paridade pode, e precisa, sair logo.