Conectados demais, humanos de menos

Por Renan dos Santos

A tecnologia pode abrir caminhos, mas não deve comandar a nossa vida. | Foto: Freepik

Era uma manhã de terça-feira. O estudante acordou, tomou um banho rápido e vestiu sua tradicional blusa preta para ir à faculdade. Antes de sair, pegou o celular para checar as notícias do dia: o Panorama da Saúde Mental de 2024 revelava que 45% dos casos de ansiedade em jovens de 15 a 29 anos estão ligados ao uso excessivo de plataformas digitais. “Quanta negatividade!”, pensou.

Para distrair a mente, assistiu a vídeos curtos: primeiro, um gato brincando com o novelo de lã; depois, um influenciador vestido como morador de rua, testando a solidariedade alheia. Ao ver alguém doar moedas ao suposto andarilho, murmurou: “Talvez o mundo ainda tenha salvação.” Em seguida, largou o celular e saiu de casa.

Logo encontrou a porteira do condomínio – loira, bem agasalhada, pois estava frio em Uberlândia. Para quebrar o gelo, disse “Bom dia!”, e ela respondeu, animada: “Ótimo dia! Sabe… eu sei que você não é daqui porque cumprimenta as pessoas. Ninguém faz isso nessa cidade.” A frase ecoou na cabeça do paulista por um momento, mas não havia tempo para refletir – estava atrasado!

Assim, ele correu pelas ruas, desviando de carros apressados, ônibus que mal paravam, cachorros latindo. Até que, quase tropeçando num homem deitado sobre papelões, exclamou: “O que é isso?!” O senhor, de roupas marrons e sujas, estendeu a mão e disse: “Bom dia, meu irmão! Você tem uma moeda aí?” O estudante respondeu: “Bom dia, tenho sim!” e lhe deu três reais.

Seguiu em frente num primeiro momento. Mas ao olhar para trás, viu um jovem de terno preto, olhos colados no celular, passando apressado pelo mesmo homem. O senhor repetiu: “Bom dia, meu irmão!” – e foi prontamente ignorado. Incomodado, o estudante convocou o engravatado: “Ei, bom dia! Você ouviu o que ele disse?” A resposta veio automática: “Com licença, estou com pressa”, sem tirar os olhos da tela. Talvez fosse apenas desatenção – ou um padrão da sociedade atual?

Já perto da faculdade, o estudante fez novos testes. Cumprimentou uma mãe e o filho, que jogava no celular – nenhum sinal de vida. Tentou com um senhor no ponto de ônibus – silêncio absoluto. “Por que as pessoas não se cumprimentam mais?!”, se perguntou. Mas engoliu a dúvida e apressou o passo – ainda estava atrasado!

Finalmente, chegou à sala e ligou o notebook para acompanhar a aula. Não resistiu, porém, às longas explicações do professor e entrou no Instagram. Viu stories – aquele típico espaço onde as pessoas compartilham o próprio dia a dia – com mensagens como: “Bom dia, meus seguidores!” e “Olá, pessoal! Como está sendo o dia de vocês?”. Online, ninguém esquece de ser gentil. Já no mundo real, parece não haver tempo – ou disposição – para isso. 

O estudante entendeu que, de fato, as pessoas estavam ansiosas, indiferentes – até desconectadas. Afinal, quanto custa um cumprimento fora das telas? Caros leitores, para além dos algoritmos e descuidos diários, é preciso desacelerar, reaprender a olhar nos olhos e, sempre que possível, oferecer aquilo que não custa nada, mas pode transformar o dia de alguém: um simples “bom dia”.

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