“Somos ocasiões”

Por Joyce Rocha

Elena Ferrante possui mais de 16 milhões de exemplares vendidos no mundo todo| Foto: Freepik

 

A obra “Dias de abandono”, publicada em 2002, na Itália, conta a história de Olga após a separação inesperada de seu casamento de 15 anos. O romance é o segundo livro da autora que atende pelo pseudônimo de Elena Ferrante, criadora de outras obras conhecidas, como “A amiga genial’”.

 

Ao longo de 184 páginas, Elena Ferrante explora com habilidade a complexidade das relações e o mergulho profundo na dor e psique humana. O livro traz à tona a história de Olga, uma mulher que foi surpreendida pela ruptura de seu casamento. Um fim sem aviso prévio, sem motivos aparentes e explicações. Seu marido, Mário, e pai de seus dois filhos, decide ir embora sem dar a ela as respostas que poderiam partir dele. 

“Um longo pedaço de vida juntos, e você já acredita que ele é o único homem com quem pode se sentir bem, atribui-lhe sabe-se lá quais virtudes decisivas, e em vez disso ele é só uma flauta que emite sons de falsidade, você não sabe realmente quem é, nem ele mesmo. Somos ocasiões.”

A história se desenvolve a partir da busca frenética de Olga em entender o porquê daquele fim inesperado. Cenas vividas pelo casal são repassadas constantemente pela personagem principal, que busca ver o que fez de errado ou o que estava errado e ela não percebeu. O leitor tem acesso ao passado e ao presente cada vez mais repleto de obsessão, culpa, dor e vazio. 

O mergulho profundo da personagem em cada um dos aspectos vividos, faz com que o leitor também se aprofunde em cada parte de sua história. Desde o hoje, a ruptura, o casamento e a Olga que ainda não tinha encontrado o amor que ela acreditou ser para a vida inteira. As complexidades apresentadas permitem a noção de que a menina que a Olga foi, já tinha se perdido, e a mulher abandonada pelo marido, já tinha se abandonado antes mesmo da partida cruel de alguém que prometeu amá-la.

Olga desmorona completamente e se perde dentro de um vazio sem que ela mesma, algo ou outro alguém oferecesse a ajuda para que ela chegasse à superfície. A personagem se vê sem motivos para continuar, motivos esses que já não faziam parte de sua vida há muito tempo. Olga é a representação fiel de diversas mulheres desgastadas pela rotina pesada e ausentes dentro de si mesmas. 

A riqueza de detalhes torna a história visivelmente mais profunda para o leitor, e é justamente nesse ponto que o livro se destaca. Logo na sinopse é exposto que Olga foi traída pelo então marido, mas a traição não é o ponto de atenção desta narrativa. O processo de rejeição, a busca pela parte que falta de si, isso sim é o ponto desta história. 

Apesar da agonia e tristeza transmitida durante a leitura, é nesse momento que Elena Ferrante entrega mais de si, com uma escrita devastadora que transmite para o papel a dor visceral de uma mulher esgotada e abandonada, os aspectos do sentir vão para o campo da dor física e se tornam visíveis até mesmo a olho nú.  

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