Maria Clara Rocha e Silva –
Na Avenida Brasil, às 18h30, o trânsito hesita. Os faróis se tornam holofotes
involuntários, iluminando a tragédia que não cabe no cronograma de ninguém. Há
um corpo estendido no asfalto, atrapalhando o fluxo. O sangue seco contorna a
silhueta imóvel, delimitando uma morte que incomoda menos pela brutalidade do fim
do que pelo transtorno gerado.
Dentro dos carros, vidros fechados abafam murmúrios inconfessáveis: “Será
que não dava pra puxar pro canto?”. A frase não é dita, mas paira. A lógica da
pressa se impõe até diante da morte: que ela seja breve, discreta e, se possível,
fora do horário de pico. O problema não é o corpo. É o congestionamento.
Na esquina com a Rua dos Trabalhadores, 30 de abril, jaz Pedro José Silva,
de 33 anos, entregador de aplicativo. Foi atropelado por um ônibus enquanto fazia
uma entrega. O celular ainda vibrava na moto destruída, mensagens de metas que
ele já não poderia cumprir , engolidas na cacofonia do trânsito. A comida, antes
quente, esfriava junto ao corpo que não voltaria para casa.
José Silva morreu por R$ 10,32. O valor da corrida. Um preço baixo demais
para quem carregava a esperança de sustentar esposa e filhos. Mas é assim que
funciona o jogo: metas inalcançáveis, pressa cronometrada, travessias apressadas,
ilusões de proteção metálica. Vinte segundos não passados no sinal vermelho
custaram-lhe a vida.
Em outra ponta da cidade, um celular toca. Movimento de pernas. Coração
disparado diante da ligação de número desconhecido. Queda. Grito abafado no
pano de prato. Luto adiado pela urgência de entender como se coloca comida na
mesa agora. ”E o funeral? É caro morrer”, pensa sua mulher.
Pedro é um entre tantos. Mas sua morte opera como síntese, condensada e
explícita, de um sistema que exige urgência em tudo, menos em proteger quem o
sustenta. Seu corpo, exposto ao tráfego e à pressa, tornou-se entrave logístico. O
incômodo de sua morte ultrapassou o de sua existência.
A pesquisa Entregas da Fome, divulgada em 2024, escancara essa
precariedade: quase um terço dos entregadores enfrenta insegurança alimentar.
Mais de 90% têm nesse trabalho sua única fonte de renda. Entregam comida sem
garantir a própria. A fome virou combustível da conveniência.
O estudo também revela que 41,3% dos entregadores já sofreram acidentes
durante o trabalho, sendo 38,8% deles graves, com afastamento. São, em sua
maioria, jovens, chefes de família.
Enquanto isso, no aplicativo, o cliente lê: “Não conseguimos entrar em
contato com o entregador. Pedimos desculpas pelo inconveniente.” Estorno. Nova
busca por algo para comer. A brutalidade escorre pela Avenida Brasil, e pela tela do
celular.
Um saco preto. Uma maca. A imobilidade. O som seco da porta da
ambulância se fechando, atrasada. O trânsito, por fim, volta a fluir.