Gonzalo Tapia é um sinal do tempo

Por: Roberto De Santis

Em uma pequena pausa do trabalho, puxei meu celular e li: “São Paulo avança na contratação do atacante Gonzalo Tapia.” Confesso que, apesar de noticiar sobre futebol como profissão, não reconheci o nome do jogador. Mas, como um bom jornalista (e especialmente fanático pelo São Paulo), rapidamente pesquisei sobre Tapia para me inteirar sobre o mais novo atleta da Barra Funda.

Nada de muito especial apareceu na minha pesquisa. Jogador jovem, pode atuar pelos lados e também centralizado. Teve um começo de carreira promissor na Universidad Católica, porém, após se transferir para o River Plate, não conseguiu encontrar seu espaço na Argentina, amargando o banco de reservas e poucos minutos de jogo. Justamente por isso, veio por empréstimo de um ano e meio, com uma taxa de liberação de apenas 100 mil dólares. Virtualmente nada no futebol atual.

“Uma aposta.” “Mais um para compor elenco.” “Se der certo, ótimo. Se não, vida que segue.” “Não deve ser bom se o River deixou sair assim, fácil.” Esses pensamentos tornaram-se rotineiros com praticamente todas as contratações do Tricolor nos últimos anos, enquanto vejo a dívida do clube chegar a quase R$ 1 bilhão.

Foi quando pensei, meu caro leitor: talvez Gonzalo Tapia não seja um jogador ruim. Talvez ele apenas tenha nascido no tempo errado.

Quando falamos de Romário, Ronaldo, Rivaldo, Bebeto, Roberto Dinamite, Van Basten, Henry e até o próprio Hernán Crespo, não nos referimos a eles como centroavantes ou pontas. Eram, puramente e simplesmente, atacantes.

Tapia, nascido em 2002, no Chile, cresceu tendo todos os citados acima como referências. Por suposto, desenvolveu o mesmo gosto que seus ídolos por fazer gols, pouco importava como. Mas o tempo passou. O 4-4-2, com dois jogadores à frente em constante movimentação, foi dando espaço ao 4-3-3 e ao futebol posicional. A função de atacante foi separada em duas caixas diferentes: os com velocidade e drible tornaram-se pontas, afastados da grande área. Os com altura e força ficaram presos entre os zagueiros, sempre como referência para o pivô ou o cruzamento.

Não duvido que Tapia saiba o caminho das redes. Afinal, ninguém se torna jogador profissional por acaso. Tampouco estou dizendo que o chileno conseguiria chegar ao nível das lendas com as quais comecei este raciocínio. Apenas lhe digo: o mais novo atacante do São Paulo é um sinal do tempo.

O tempo, cruel como é, apresentou a um pequeno garoto em Santiago um mundo maravilhoso. Um mundo em que você não precisava ser alto ou baixo, rápido ou lento, forte ou fraco. Bastava saber como chutar uma bola dentro de um retângulo para se tornar motivo de alegria para milhões de pessoas. O garoto entrou nas categorias de base da Universidad Católica com 10 anos e viu, aos poucos, seu jeito de jogar futebol perder espaço diante das novas tendências táticas. Percebeu que não era rápido e driblador o suficiente para ser ponta, nem alto e forte o bastante para ser centroavante. De repente, sua maior qualidade não era mais fazer gols, e sim ser “polivalente”. Tapia se viu perder para o tempo.

Após essa reflexão, minha pausa terminou. Continuei até o final do expediente, sem espaço para continuar pensando no São Paulo. Já no caminho de volta para casa, me lembrei do novo atacante e cheguei a uma conclusão: poucas contratações vão resumir tão bem o momento do clube como esta.

O Tricolor, soberano como é, apresentou a um pequeno garoto em Bariri, no interior de São Paulo, um mundo maravilhoso. Um mundo onde títulos eram recorrentes, o futebol bem jogado era ocorrência semanal e não um acontecimento esporádico. Um mundo onde “aqui é trabalho, minha filha.” O garoto cresceu e viu, aos poucos, os rivais trocarem a inveja pela soberba. Viu a palavra “trabalho”, que define perfeitamente a identidade do clube pelo qual é apaixonado, desaparecer dentro da instituição construída com base na busca pela perfeição de Telê Santana. De repente, o apelido Soberano se tornou obsoleto. Eu vi o São Paulo perder para o tempo.

Mas eu te pergunto, meu amigo leitor: Tapia e o São Paulo perderam para o tempo ou são simplesmente sinais dele?

A parte mais bonita do inevitável tempo é que, inevitavelmente, ele te dá tempo para aprender. “Perder” não é a palavra correta para descrever essa situação. A derrota é um fato consumado. Tapia e o São Paulo não foram superados definitivamente, e sim avisados. Cabe ao clube, ao jogador, ao Crespo, ao resto do elenco, ao torcedor, à diretoria, escutar o senhor tempo e entender que momentos ruins não são eternos. São algo muito mais passageiro. São apenas sinais.

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